Quando usamos um nome feminino para dar luz ao texto, todo tipo de reação é esperada.
Não digo isso, leitor, com a intenção de inferir que mulheres são seres instáveis, surpreendentes, complexos ou quaisquer outro adjetivo que lhe venha em mente, digo que serão diferentes as expectativas tão quão diferentes forem as épocas nas quais os textos são publicados, de maneira geral, ou tão quão diferente sejam os destinatários, mais especificamente.
Mas não, não é uma cantiga de amor, tão menos um poema mais complexo. Menos que isso ou mais, quem sabe? Trata-se simplesmente da história de uma espada, que por causalidade tem nome de mulher.
Irina, que agora sabemos ser uma espada, nem sempre foi chamada Irina - que vem do Russo, sendo nome comum para cachorros, e significa “Esperança”. - Era antes chamada “lixo”, ‘bom para nada” “cega”, “espeto”. Pelos tantos nomes que tinha alguns podem pensar que apresentava muitas utilidades, mas ainda não. Bem verdade, a vida de Irina começa quando duas crianças a encontraram sendo jogada num canto do porto próximo ao cais por um senhor barbudo de índole questionável e cheiro característico e desagradável. Os meninos, pois as crianças se tratavam de dois meninos entre 8 e 9 anos, correram até ela na esperança de encontrar algo que lhes saciasse o desejo de ser pirata. Carregaram-na por exatos 27m antes de erroneamente a julgarem incapaz sequer de servir para brincar.
E Irina ficou lá, 32m do cais observando como a vida se movia, lentamente afundando em sua depressão. Era uma espada muito profunda. Observou durante dias pessoas indo e vindo de um porto comercial, trazendo seus peixes e outros frutos do mar, comendo, tudo dentro do mais pacato e enfadonho normalismo. Achava engraçado, entretanto, que durante a noite casais corressem de maneira levemente embriagada, sumindo por trás de um barco pesqueiro em específico, recriando sons de crianças brincando de pega e palavras de significados pesados, enquanto durante o dia o mesmo barco fosse tido como “de família”, puro, casto, trabalhador. - Os humanos - pensava Irina - São muito superficiais, por isso fáceis de enganar.
Talvez por estar tão acostumada a observar a vida no porto que ao invés de perceber que estava ficando cada vez mais enferrujada averiguou que burburinhos começavam a correr de lado a outro naquele cais. Seu pobre coraçãozinho palpitaria acelerado tomado pela tensão do lugar se ele existisse, mas só fez enferrujar uma bolhinha engraçada no punho. Algo realmente grande estava para acontecer e Irina resolveu se preparar, era sua chance.
Mas o que aconteceu foi que na manhã derradeira nada demonstrava que iria acontecer.Ao escrever nada, me refiro ao nada com o sentido mais comum possível, sem as desnecessárias reviravoltas filosóficas. O dia se comportava como domingo, enviando todo aquele povo Igreja a dentro. O relógio já havia passado das três da tarde quando se escutou barulho de madeira rangendo, primeiro no cais e depois na Igreja. Eu gostaria, como gostaria, de contar em detalhes os acontecimento seguintes. Descreveria vários personagens de nomes e importâncias distintas chegando em barcos apropriados, ações estratégicas, batalhas épicas, duelos, gritos de tomada e como a areia pulava cada vez que um dos pés fortes dos piratas que tinham acabado de chegar ao cais encontrava o solo, brandindo sua espada, gritando e saqueando. Queria contar como esse tipo de investida era tão sem precedentes, como aqueles piratas tomavam a terra como se fosse outro navio qualquer, como talvez mais do que saqueando estivessem sim brincando, como riam-se todos e lidavam com os vigaristas vendedores inescrupulosos como quem brinca com um filhote de labrador, roubando suas espadas e as colocando em lugares altos enquanto diziam “vem pegar, vem”. Mas não vou, porque escrevo isso em um conto e não em um livro.
Assim estipulado, vamos focar na pirata, que também é do sexo feminino como a espada, e que além do mais era a Capitã. Antes esclareço que neste mundo existem dois tipos de pessoas: as que querem parecer poéticas e dizem que em um navio pirata não é o Capitão o mais importante e sim qualquer outro tripulante responsável por fazer o navio funcionar como uma engrenagem bem lubrificada, e as que querem meramente ser fiéis a sua honestidade e admitem de uma vez por todas que o Capitão é, sim, o mais importante no navio. Sem mais, a necessidade dessa distinção me provoca gastrite.
Voltando, dizia que focássemos na Capitã, que é a mais importante no Navio. Vinha no primeiro barco mas só seguiu depois que o ultimo atracou, indicando ser adequada a sua fama. Passou por seus companheiros sorrindo e lhes dando apoio, socou alguns comerciantes e empurrou alguns guardas. Tirando isso ninguém a tocou sequer uma vez. Tinha nela qualquer coisa de forte e angelical, e um olhar pesado desses que já sofreram muito. Irina apreciou como esses olhos não seriam facilmente enganados e, por um momento, esqueceu da vida do porto e da sua limitação espacial a 32m do cais.
Caminhava em direção a Igreja e não se preocupava com o que estava a sua volta. Irina tentou inventar um diálogo entre a Capitã e sua própria consciência, algo que corria parecido com um nobre mosqueteiro recusando-se a enfrentar um inimigo em desvantagem numérica.- Talvez - pensou Irina - esteja ploteando fazer aqueles senhores lutarem uma luta que valha a pena, finalmente.
Mas não precisou chegar a Igreja. Quando não estava a muito mais de 36m do cais, 3 pescadores brancamente armados saíram e avançaram contra a Capitã, que puxou uma espada teimosa, com preguiça de sair da bainha.
-Cargas de espada burguesa! - Gritou.
Aqui esta algo que todos deveriam saber: nunca confie em espadas de tesouro. Passaram tempo demais dormindo do lado do ouro e perderam o gosto pela ação. Nos casos das poucas exceções elas carregam terríveis maldições e garantem a quem lhes ergue pouco tempo de glória, que não paga a queda que se segue. A Capitã aprendeu isto naquela batalha, uma hora não muito apropriada. Sem ter o que fazer, arrancou a espada ainda embainhada e jogou no que parecia ser um monte baixo de relva. Talvez confiasse na nobreza de seu oponente, acreditando que lhe dariam outra espada. Surpreendeu-se pelo barulho de colisão entre metais que a espada fez ao tocar o chão.
Foi assim, por mera curiosidade e desespero, que se deu o encontro entre Irina e a Capitã Nevada James. Após levar uma bainhada na bolha de ferrugem que crescera no seu punho nos últimos dias, ainda com dor a até então “Lixo” viu um rosto redondo encará-la com olhos de cobiça - Irina! - foi o que exclamou e não tardou a enpunha-la.
Naquele dia, dos que enfrentaram a capitã poucos sobreviveram. E mesmo estes não duraram muito, morreram dias depois com cortes de profundidades peculiares e gravemente inflamados.
Numa nota mais pessoal, confio a vocês que levo a vida contando historias de pirata. Já acompanhei a vida de muitos, dos que vivem pouco até os que constroem uma estrada longa. Já são mais de 300 anos, as vezes me canso de tantas aventuras e sonho poder acompanhar a trajetória de vida de uma ameba. A maior parte do tempo fico tão frustrado que reduzo a historia a começo, meio e fim. “Este é o Capitão Celeste, que foi muito temido porque usava seus prisioneiros como bolas de canhão e um dia foi perfurado por uma espada enquanto dormia um sono bêbado em céu aberto.” Me aperta o coração como depois de algum tempo os acontecimentos parecem perder a mágica. Entretanto, o encontro entre Nevada e Irina sempre me provoca inquietação. Capitã Nevada James de próprio punho fez o seu melhor para consertar o que precisava ser consertado em Irina. Juntas elas construíram uma longa, rica e assustadoramente famosa carreira, uma das mais cheias de lendas. Diziam que Irina era uma espada invencível na mão de Nevada mas que em qualquer outra seria suficiente para assar carne em fogo de chão e não mais. Me pergunto até hoje se não reside na simplória confiança que Nevada depositava em Irina a chave para esse mistério, talvez seja verdadeiro essa tal de fé. Ai de mim, tão cético, levantar a existência de algo tão singular que só pode ser auto explicada. Fé é fé, sem provas, só fé. Se me perguntam na rua digo que não, mas no meu íntimo...
3 comentários:
A capitã Nevada salvou o meu fim de tarde.
Ô guria, desistiu do blog? Já faz mais de um ano que não publica!
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