Seis e meia: toca o despertador
Ia Maria e desligava, vai Maria fazer o café. Que moça chata que é Maria, nunca foge do seu dia-a-dia.
Maria nunca que atrasou pro trabalho. Maria nunca atrasou pra nada, pois só trabalha. Maria cruza pelo menos três vezes por dia com o empacotador do mercado próximo a sua casa, mas nunca diz oi.
O empacotador do mercado, cujo nome, graças a Maria, nós não sabemos, não tem ambição. O empacotador tem a cara perdida e vazia de expressão quase o tempo todo, de vez em quando só que parece sentir tristeza ou tédio.
Ele trabalha no mercado desde que Maria, moça crescida já, era muito pequena, e talvez antes disso. Volta para casa no almoço e se deixa ver pela janela de Maria. Depois volta para o mercado e de lá só sai de noite. Chega em casa e toma sua cerveja. Toma seu banho, outra cerveja. Pensa que deveria começar a fumar algo e depois vai dormir. Faz isso todo dia
Maria as vezes pensa que dar oi para o empacotador talvez faça dele um homem mais feliz, mas mesmo tendo fé na sua “teoria do oi” ela nunca teve coragem de dar um passo assim tão longe da sua rotina. Sendo assim, o empacotador nunca viu Maria.
O engraçado, e desculpem o humor pitoresco, é que esses dois indivíduos de vida tão previsível resolveram um dia, coincidentemente o mesmo: domingo, quebrar uma parte de suas correntes e “viver”. Pegaram o mesmo metrô: iam conhecer o parque do outro lado da cidade.
Estavam um do lado do outro, em pé naquele aperto, quando então as luzes piscaram e se viu uma fagulha mais a frente. Dizem os responsáveis que aparentemente um rato “Maria” também resolveu fugir do sempre-igual. Quando saiu de sua casa, sem querer se viu jogado na linha do metrô, que nunca precisou de ajuda para causar acidentes drásticos. Então, agora que tinha ajuda finalmente, por que não quebrar de vez?
Era a primeira vez que Maria estava desgovernada. Era a primeira vez do empacotador também. Sentiam-se tão cheios de vida, aqueles dois! Foi como se alguém tivesse soprado cor nos olhos deles.
-OI – disse Maria
E morreram.
Ninguém apareceu para reconhecer os corpos.