terça-feira, 19 de outubro de 2010

Maria

Seis e meia: toca o despertador

Ia Maria e desligava, vai Maria fazer o café. Que moça chata que é Maria, nunca foge do seu dia-a-dia.

Maria nunca que atrasou pro trabalho. Maria nunca atrasou pra nada, pois só trabalha. Maria cruza pelo menos três vezes por dia com o empacotador do mercado próximo a sua casa, mas nunca diz oi.

O empacotador do mercado, cujo nome, graças a Maria, nós não sabemos, não tem ambição. O empacotador tem a cara perdida e vazia de expressão quase o tempo todo, de vez em quando só que parece sentir tristeza ou tédio.

Ele trabalha no mercado desde que Maria, moça crescida já, era muito pequena, e talvez antes disso. Volta para casa no almoço e se deixa ver pela janela de Maria. Depois volta para o mercado e de lá só sai de noite. Chega em casa e toma sua cerveja. Toma seu banho, outra cerveja. Pensa que deveria começar a fumar algo e depois vai dormir. Faz isso todo dia

Maria as vezes pensa que dar oi para o empacotador talvez faça dele um homem mais feliz, mas mesmo tendo fé na sua “teoria do oi” ela nunca teve coragem de dar um passo assim tão longe da sua rotina. Sendo assim, o empacotador nunca viu Maria.

O engraçado, e desculpem o humor pitoresco, é que esses dois indivíduos de vida tão previsível resolveram um dia, coincidentemente o mesmo: domingo, quebrar uma parte de suas correntes e “viver”. Pegaram o mesmo metrô: iam conhecer o parque do outro lado da cidade.

Estavam um do lado do outro, em pé naquele aperto, quando então as luzes piscaram e se viu uma fagulha mais a frente. Dizem os responsáveis que aparentemente um rato “Maria” também resolveu fugir do sempre-igual. Quando saiu de sua casa, sem querer se viu jogado na linha do metrô, que nunca precisou de ajuda para causar acidentes drásticos. Então, agora que tinha ajuda finalmente, por que não quebrar de vez?

Era a primeira vez que Maria estava desgovernada. Era a primeira vez do empacotador também. Sentiam-se tão cheios de vida, aqueles dois! Foi como se alguém tivesse soprado cor nos olhos deles.

-OI – disse Maria

E morreram.

Ninguém apareceu para reconhecer os corpos.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Anexo do blog: Receitas da Capitã Nevada #1 Batatas Gripadas

Estávamos a mais de 4 meses no mar e só tínhamos batatas. Sabe de quantas formas diferentes você pode comer uma batata? Várias. Sabe quantas são realmente gostosas? Bom, bem menos. Foi nessa época que vi um pequeno burburinho no convés, ouvi aquele silencio maçante e senti aqueles olhares frios voltando-se contra mim cada vez que eu passava por um marujo. Eu sabia que alguém naquele navio estava gravido de um motim e, muito pior, estava prestes a dar a luz.
Iam me matar e comer minha carne. Matar para sobreviver: é isso que se faz em casos extremos e, no mais, carne de capitão é muito mais bem tratada que de marujo. Não temos a pele torrada pelo sol e nossos músculos não são tão grandes, também não temos gordura em demasia e nossa carne é macia como a de um cordeiro. Sei bem o que estou dizendo pois já provei tanto carne de cordeiro quanto de capitão ou de marujo: a de capitão (que meu antecessor navegue em paz pelas nuvens do céu) é bem melhor.
Eu precisava fazer algo. Precisava mostrar para aquele bando de ingratos que eles podiam ficar satisfeitos com batatas e ainda acha-las muito apetitosas, só assim salvaria minha linda pele. Se eu precisasse abrir mão de alguns ingredientes da minha dispensa secreta (a que triste foi abrir mão de meus luxos!), que assim fosse! Me coloco agora a compartilhar esta receita na esperança de que no futuro ela salve a vida de algum outro capitão delicioso, assim como salvou a minha.

Você vai precisar de:
Batatas
Manteiga
Sal
Requeijão
Cebolinha (ou, tendo baixa renda, orégano)
Vinil do Vinicius de Moraes.

Fiz tocar meu Vinícius. Peguei batatas, tantas quanto eu achei que seriam necessárias para satisfazer aqueles porcos glutões. Descasquei-as e cortei-as em cubos pequenos, que assim elas cozinham mais rápido e poupam lenha. Estando cozidas, a parte das batatas estava pronta.
A, por favor, não esqueça de escorrer a agua que usou para cozinhar as batatas.
Abri mão do meu requeijão. Um lindo sacrifício italiano que salvou minha vida. Após colocar um pouco (BEM POUCO) de mateiga para cobrir as batatas, coloquei algumas colheres de requeijão. A quantidade depende mais de quanto valor você da a sua vida: pouquíssimo requeijão eles te matam, muito requeijão e você fica sem ter com que cobrir as torradas na hora do chá. O que eu tomei como perfeito foi colocar o suficiente para abraçar todas as batatas, sem que sobre muito molho na panela.
Ao colocar o requeijão para esquentar com a manteiga e as batatas ele parece tornar-se imediatamente aguado. Não se desespere! Mexa tudo como se você fosse um prisioneiro que rema, movimentos constantes e levemente circulares, e logo o molho parecerá mais encorpado. Não precisa deixar no fogo mais que isso, o que é muito bom pois desperdiçar tempo e lenha não é boa coisa. Em tempos de crise, economia é a lei.
Depois disso fiz ainda outro sacrifício italiano ralando um pouco da minha mozzarella sobre aquela panela que até então mais parecia uma gosma nojenta. Salpiquei um pouco de orégano por cima e magicamente aquela maçaroca se transformou em um elegante prato! Ficou realmente muito bonito e gostoso mas tenho certeza que cebolinha teria sido uma escolha melhor. Mal acabara meu Vinicius e eu já tinha terminado com as batatas
Nunca vi homens mais felizes que aqueles comendo batatas, os 5kg não duraram 5 minutos.

Deixei que dessem um nome para minha obra prima culinária e eles resolveram chamar de “batata gripada” porque acharam muito parecido com...enfim, você ira entender quando fizer.