sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Anexo do blog: Receitas da Capitã Nevada. #3 Panada
Eu também não sou francesa ou inglesa, como se espera de um pirata. Sou russa, por parte de pai, e italiana, por parte de mãe. Quando me lancei para longe da terra pela primeira vez vi e ouvi centenas de marujos rindo do meu sangue. “Russos não servem pro mar!” gritavam em meio a risadas “O que é que essa italianinha vai fazer quando acabar o macarrão?” zombavam. Nesses casos eu sempre deixava que Irina*, minha amada espada de confiança, abafasse os risos por mim.
Mas ter nascido em família italiana e pobre me trouxe um grande beneficio que aqueles crápulas nojentos nunca tiveram: saber o que é panada. Não tem jeito, só sabe o que é panada quem tem pelo menos um pouco de sangue de italiano pobre correndo nas veias. Aquela pasta de pão velho amolecido em caldo ralo e misturado com ovo já salvou inúmeras famílias. Na minha casa mesmo vivíamos a base disso quando papai estava desempregado. Eu roubava os ovos da cherri, a galinha do vizinho, e mamãe fazia caldo com qualquer coisa que pudesse encontrar, mesmo que fosse só um pedaço de osso.
Quando entrei pra pirataria eu abandonei quase que instantaneamente a minha condição de pobreza, pode-se dizer que eu tenha talento pra coisa, mas não abandonei a panada. Com o tempo e com as influencias culturais de todos os lugares por onde passei com o Névoa** a receita original foi modificada, mas sem perder a essência: baixo custo, sem contra-indicação e suavemente saborosa. É o tipo de comida perfeita pra dias frios e chuvosos e eu não poderia descansar em paz sabendo que não a passei adiante. Para meu sucessor deixo a receita desta maravilha da minha infância, acreditando, mais uma vez, que possa vir a lhe ser útil em momentos de crise.
Você vai precisar de:
Pão
Caldo*** (qualquer um, menos de peixe!)
Ovos (um para cada pão ,de tamanho médio, utilizado)
Orégano
Manteiga
Gengibre, sal e pimenta a gosto.
Olhe para o caldo e ordene que ele aqueça. Preste atenção! Quando se é bom capitão comanda-se até a agua. Uma vez cumprida a ordem, pique pão suficiente para não deixar a panada seca ou molhada demais e faça-o afundar no caldo fervente como se fosse um soldado inglês. Adicione gengibre (lembre-se que gengibre tem um gosto forte e peculiar, coloque pouco!) sal e pimenta. Só depois que o pão amolecer e desmanchar completamente acrescente o ovo e mexa como se a sua vida dependesse disso até que ele pareça cozido. Se quiser colocar queijo ralado depois de pronto fica muito gostoso. Cubra com um pouco de manteiga (a quantidade fica por conta da relação saúde/gosto)
Nas ultimas vezes que fiz tentei trocar o caldo por rum. Não faça isso, é um desperdício de panada e, principalmente, de rum.
*Nome comum na Russia, significa “Paz”
**Névoa é o famoso navio da Capitã Nevada James
***O livro de Receitas da Capitã possui um capitulo especial para caldos.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Desespero
Não se dispa antes do tempo,
Segure bem essas pétalas.
Logo o jarro volta a estar cheio.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Maria
Seis e meia: toca o despertador
Ia Maria e desligava, vai Maria fazer o café. Que moça chata que é Maria, nunca foge do seu dia-a-dia.
Maria nunca que atrasou pro trabalho. Maria nunca atrasou pra nada, pois só trabalha. Maria cruza pelo menos três vezes por dia com o empacotador do mercado próximo a sua casa, mas nunca diz oi.
O empacotador do mercado, cujo nome, graças a Maria, nós não sabemos, não tem ambição. O empacotador tem a cara perdida e vazia de expressão quase o tempo todo, de vez em quando só que parece sentir tristeza ou tédio.
Ele trabalha no mercado desde que Maria, moça crescida já, era muito pequena, e talvez antes disso. Volta para casa no almoço e se deixa ver pela janela de Maria. Depois volta para o mercado e de lá só sai de noite. Chega em casa e toma sua cerveja. Toma seu banho, outra cerveja. Pensa que deveria começar a fumar algo e depois vai dormir. Faz isso todo dia
Maria as vezes pensa que dar oi para o empacotador talvez faça dele um homem mais feliz, mas mesmo tendo fé na sua “teoria do oi” ela nunca teve coragem de dar um passo assim tão longe da sua rotina. Sendo assim, o empacotador nunca viu Maria.
O engraçado, e desculpem o humor pitoresco, é que esses dois indivíduos de vida tão previsível resolveram um dia, coincidentemente o mesmo: domingo, quebrar uma parte de suas correntes e “viver”. Pegaram o mesmo metrô: iam conhecer o parque do outro lado da cidade.
Estavam um do lado do outro, em pé naquele aperto, quando então as luzes piscaram e se viu uma fagulha mais a frente. Dizem os responsáveis que aparentemente um rato “Maria” também resolveu fugir do sempre-igual. Quando saiu de sua casa, sem querer se viu jogado na linha do metrô, que nunca precisou de ajuda para causar acidentes drásticos. Então, agora que tinha ajuda finalmente, por que não quebrar de vez?
Era a primeira vez que Maria estava desgovernada. Era a primeira vez do empacotador também. Sentiam-se tão cheios de vida, aqueles dois! Foi como se alguém tivesse soprado cor nos olhos deles.
-OI – disse Maria
E morreram.
Ninguém apareceu para reconhecer os corpos.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Anexo do blog: Receitas da Capitã Nevada #1 Batatas Gripadas
Iam me matar e comer minha carne. Matar para sobreviver: é isso que se faz em casos extremos e, no mais, carne de capitão é muito mais bem tratada que de marujo. Não temos a pele torrada pelo sol e nossos músculos não são tão grandes, também não temos gordura em demasia e nossa carne é macia como a de um cordeiro. Sei bem o que estou dizendo pois já provei tanto carne de cordeiro quanto de capitão ou de marujo: a de capitão (que meu antecessor navegue em paz pelas nuvens do céu) é bem melhor.
Eu precisava fazer algo. Precisava mostrar para aquele bando de ingratos que eles podiam ficar satisfeitos com batatas e ainda acha-las muito apetitosas, só assim salvaria minha linda pele. Se eu precisasse abrir mão de alguns ingredientes da minha dispensa secreta (a que triste foi abrir mão de meus luxos!), que assim fosse! Me coloco agora a compartilhar esta receita na esperança de que no futuro ela salve a vida de algum outro capitão delicioso, assim como salvou a minha.
Você vai precisar de:
Batatas
Manteiga
Sal
Requeijão
Cebolinha (ou, tendo baixa renda, orégano)
Vinil do Vinicius de Moraes.
Fiz tocar meu Vinícius. Peguei batatas, tantas quanto eu achei que seriam necessárias para satisfazer aqueles porcos glutões. Descasquei-as e cortei-as em cubos pequenos, que assim elas cozinham mais rápido e poupam lenha. Estando cozidas, a parte das batatas estava pronta.
A, por favor, não esqueça de escorrer a agua que usou para cozinhar as batatas.
Abri mão do meu requeijão. Um lindo sacrifício italiano que salvou minha vida. Após colocar um pouco (BEM POUCO) de mateiga para cobrir as batatas, coloquei algumas colheres de requeijão. A quantidade depende mais de quanto valor você da a sua vida: pouquíssimo requeijão eles te matam, muito requeijão e você fica sem ter com que cobrir as torradas na hora do chá. O que eu tomei como perfeito foi colocar o suficiente para abraçar todas as batatas, sem que sobre muito molho na panela.
Ao colocar o requeijão para esquentar com a manteiga e as batatas ele parece tornar-se imediatamente aguado. Não se desespere! Mexa tudo como se você fosse um prisioneiro que rema, movimentos constantes e levemente circulares, e logo o molho parecerá mais encorpado. Não precisa deixar no fogo mais que isso, o que é muito bom pois desperdiçar tempo e lenha não é boa coisa. Em tempos de crise, economia é a lei.
Depois disso fiz ainda outro sacrifício italiano ralando um pouco da minha mozzarella sobre aquela panela que até então mais parecia uma gosma nojenta. Salpiquei um pouco de orégano por cima e magicamente aquela maçaroca se transformou em um elegante prato! Ficou realmente muito bonito e gostoso mas tenho certeza que cebolinha teria sido uma escolha melhor. Mal acabara meu Vinicius e eu já tinha terminado com as batatas
Nunca vi homens mais felizes que aqueles comendo batatas, os 5kg não duraram 5 minutos.
domingo, 8 de agosto de 2010
Angela.
Não é que eu não goste de assumir que já fui adolescente mas realmente me envergonho muito desde dia. Não bastasse o que já me haviam feito naquele ano (e que droga de ano foi 2010) lá estava ele, meu ex namorado, meu primeiro amor profundo, o homem que eu escolhi tão ingenuamente pra chamar de meu, me traindo da pior forma: traição de amizade.
É, traição de amizade dói mais que traição de amor. Orgulhava-me de dizer que, mesmo após termos terminado, eu e meu ex-futuro-presente-maior-amante-perfeito do subjuntivo (porque eram todas coisas que PODERIAM acontecer) ainda éramos e seriamos (íamos, íamos) melhores amigos pra sempre. Mas não fomos e não somos.
Desilusão de amizade mata mais que muita guerra. Mata de amor puro e inocente. Mata de amor bonito que só quer nos ver feliz. Mata e deixa a gente morrendo de vontade odiar e não conseguindo porque se ama muito e por muito se amar, morre. E morre metaforicamente porque esta morte é tão insujável que não mataria ninguém de morte morrida. Deixa a gente toda viva querendo morrer e não conseguindo.
Foi neste dia quando, na locadora de filmes local, eu não consegui mais suportar aquela cena e, segurando o choro, disse para o causador do meu mal, sua cúmplice e meus outros amigos que eu ia ate a casa de uma conhecida que morava a duas quadras de distancia e que eu não via a muito. Disse que estava com saudades e que precisava vê-la. Não menti, precisava mesmo.
O caminho de duas quadras eu tenho certeza que fiz em menos de um minuto e nem sequer corri, pena que tempo real e tempo sentido são tão diferentes. Lembro de tudo, lembro dos buracos que evitei pra não tropeçar, lembro de sair chorando e das pessoas que esquivei quando estas vinham ver se eu estava bem. Oras, e vocês não fariam o mesmo? Não era obvio que eu não estava? Ou alguém realmente esta bem quando sai correndo e chorando pela rua, fazendo uma verdadeira cena fim de carreira? Ignorei todos da minha platéia incapaz de compreender o obvio e segui reto e firme pra casa da minha amiga. Era tanta pressa que nem percebi quando quase me mataram presa entre a moto e o caminhão e se tivesse percebido não ligaria, afinal eu já estava morta mesmo. Passei ainda por duas menininhas brincando de festa de aniversario no meio da rua (as 8h da noite) e segui rente pro meu destino.
Bati palmas, clamei
Fiz amizade com o cachorro, desesperei
Desisti e me entreguei.
Comecei a trilhar meu caminho de volta, mais desanimada que viúva de marido pobre, até que achei um incrivelmente confortável e consolador meio fio. Sentei. Reparei que estava a uns 20 metros daquelas meninas que se divertiam tanto.
Que inveja! – pensei alto mas me mantive muda. A freqüência da minha inveja, ou o meu choro derramado no caminho, foi suficiente para chamar a atenção daquelas meninas... pelo menos de uma delas.
A outra era muito normalzinha, não tinha aquilo que a primeira tinha. Aquilo que eu tinha esquecido que existia ou que, muito egoísta, achava que só tinha sobrado em mim. A outra não me trouxe a esperança que a primeira me trouxe, não me deu aquela injeção de vida concentrada que me motivou e me levantou de supetão e me vez falar alto “nossa! Ainda há vida” e não me fez acreditar na bondade mais uma vez. A outra nem sei quem era, era muito apagadinha.
Quando ergui o rosto ela estava ali sozinha, a primeira menina. Tinha o que, sete anos? Acho que sim. Era um bocado gordinha e tinha cabelo armado. Era linda, linda demais! Linda que doía e quando eu vi seu sorriso de dentes grandes e tortos me senti o bichinho mais feio do mundo, mas ainda assim me senti amada.
- Oi – ela começou, meio sem jeito
- Oi, tudo bem? – eu respondi, já renovada
- Tudo, você é muito bonita mas ta triste. – eu emudeci, ela continuou – Você quer brincar de festinha com a gente?
- Eu até quero, mas não posso - nunca me perdoei por não ter ido brincar com ela, aposto que teria aprendido um monte sobre aniversários – tenho que voltar com os meus amigos, eles estão preocupados
- a ta.
- Qual o seu nome?
- Meu nome é Angela. E o seu?
- Thamara. Angela, você pode me fazer outro favor?
- Posso!
- Manda um “oi “ pra menina daquela casa ali?
E ela aceitou. E foi muito corajosa, especialmente porque no meio da conversa dois amigos preocupados vieram atrás de mim e ficaram parados encarando a menininha que batia no joelho deles. Ela foi forte.
Mais tarde, contando sobre o ocorrido, mandei à minha sortuda amiga que morava perto da casa da Angela uma carta - disse a ela que lhe mandasse um beijo ^^- comentei - ela te conhece! te acha muito bonita!
Fiquei muito feliz, mas nada surpresa, quando soube que as palavras de Angela haviam salvo o dia de mais alguém.