domingo, 8 de agosto de 2010

Angela.

Começou quando eu estava muito mal.
Não é que eu não goste de assumir que já fui adolescente mas realmente me envergonho muito desde dia. Não bastasse o que já me haviam feito naquele ano (e que droga de ano foi 2010) lá estava ele, meu ex namorado, meu primeiro amor profundo, o homem que eu escolhi tão ingenuamente pra chamar de meu, me traindo da pior forma: traição de amizade.

É, traição de amizade dói mais que traição de amor. Orgulhava-me de dizer que, mesmo após termos terminado, eu e meu ex-futuro-presente-maior-amante-perfeito do subjuntivo (porque eram todas coisas que PODERIAM acontecer) ainda éramos e seriamos (íamos, íamos) melhores amigos pra sempre. Mas não fomos e não somos.

Desilusão de amizade mata mais que muita guerra. Mata de amor puro e inocente. Mata de amor bonito que só quer nos ver feliz. Mata e deixa a gente morrendo de vontade odiar e não conseguindo porque se ama muito e por muito se amar, morre. E morre metaforicamente porque esta morte é tão insujável que não mataria ninguém de morte morrida. Deixa a gente toda viva querendo morrer e não conseguindo.

Foi neste dia quando, na locadora de filmes local, eu não consegui mais suportar aquela cena e, segurando o choro, disse para o causador do meu mal, sua cúmplice e meus outros amigos que eu ia ate a casa de uma conhecida que morava a duas quadras de distancia e que eu não via a muito. Disse que estava com saudades e que precisava vê-la. Não menti, precisava mesmo.

O caminho de duas quadras eu tenho certeza que fiz em menos de um minuto e nem sequer corri, pena que tempo real e tempo sentido são tão diferentes. Lembro de tudo, lembro dos buracos que evitei pra não tropeçar, lembro de sair chorando e das pessoas que esquivei quando estas vinham ver se eu estava bem. Oras, e vocês não fariam o mesmo? Não era obvio que eu não estava? Ou alguém realmente esta bem quando sai correndo e chorando pela rua, fazendo uma verdadeira cena fim de carreira? Ignorei todos da minha platéia incapaz de compreender o obvio e segui reto e firme pra casa da minha amiga. Era tanta pressa que nem percebi quando quase me mataram presa entre a moto e o caminhão e se tivesse percebido não ligaria, afinal eu já estava morta mesmo. Passei ainda por duas menininhas brincando de festa de aniversario no meio da rua (as 8h da noite) e segui rente pro meu destino.

Bati palmas, clamei
Fiz amizade com o cachorro, desesperei
Desisti e me entreguei.

Comecei a trilhar meu caminho de volta, mais desanimada que viúva de marido pobre, até que achei um incrivelmente confortável e consolador meio fio. Sentei. Reparei que estava a uns 20 metros daquelas meninas que se divertiam tanto.

Que inveja! – pensei alto mas me mantive muda. A freqüência da minha inveja, ou o meu choro derramado no caminho, foi suficiente para chamar a atenção daquelas meninas... pelo menos de uma delas.

A outra era muito normalzinha, não tinha aquilo que a primeira tinha. Aquilo que eu tinha esquecido que existia ou que, muito egoísta, achava que só tinha sobrado em mim. A outra não me trouxe a esperança que a primeira me trouxe, não me deu aquela injeção de vida concentrada que me motivou e me levantou de supetão e me vez falar alto “nossa! Ainda há vida” e não me fez acreditar na bondade mais uma vez. A outra nem sei quem era, era muito apagadinha.

Quando ergui o rosto ela estava ali sozinha, a primeira menina. Tinha o que, sete anos? Acho que sim. Era um bocado gordinha e tinha cabelo armado. Era linda, linda demais! Linda que doía e quando eu vi seu sorriso de dentes grandes e tortos me senti o bichinho mais feio do mundo, mas ainda assim me senti amada.

- Oi – ela começou, meio sem jeito
- Oi, tudo bem? – eu respondi, já renovada
- Tudo, você é muito bonita mas ta triste. – eu emudeci, ela continuou – Você quer brincar de festinha com a gente?
- Eu até quero, mas não posso - nunca me perdoei por não ter ido brincar com ela, aposto que teria aprendido um monte sobre aniversários – tenho que voltar com os meus amigos, eles estão preocupados
- a ta.
- Qual o seu nome?
- Meu nome é Angela. E o seu?
- Thamara. Angela, você pode me fazer outro favor?
- Posso!
- Manda um “oi “ pra menina daquela casa ali?

E ela aceitou. E foi muito corajosa, especialmente porque no meio da conversa dois amigos preocupados vieram atrás de mim e ficaram parados encarando a menininha que batia no joelho deles. Ela foi forte.

Mais tarde, contando sobre o ocorrido, mandei à minha sortuda amiga que morava perto da casa da Angela uma carta - disse a ela que lhe mandasse um beijo ^^- comentei - ela te conhece! te acha muito bonita!

Fiquei muito feliz, mas nada surpresa, quando soube que as palavras de Angela haviam salvo o dia de mais alguém.