segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Lápis ou caneta.


Quinta-feira foi um daqueles dias que tem cada minuto programado. Daqueles
que duram, claro, só um dia, mas que tomam 3 ou 4 outros emprestados só pra se fazer o planejamento. Nesses dias é importante – acho eu – que nada inesperado aconteça, e é bem por isso que elas acontecem.

Eu sou ansioso, muito. Ansioso a ponto de colocar as palavras do fim do meu
discurso no começo. Por exemplo, quando pedi um café hoje eu disse “me vê um sem
expresso... um expresso sem açúcar, por favor”. Gosto das coisas assim, forte... Mas
onde eu estava? A sim, o velho. Não, antes... Bom, questão é que eu saí do trabalho
meia hora mais cedo com uma desculpa cuidadosamente inventada, sem falhas, e sai
numa pressa que nem lavei a mão. Cheguei 20 minutos mais cedo e tentei me acalmar.

Dai sim veio o velho. Meia dúzia de folhas na mão e um lápis, não caneta, lápis.
Olhou pra mim como se eu estivesse escondendo uma ideia muito boa.

– O senhor escreve? – Ele disse olhando bem para minha mão.

– Bom, sim. – Não era mentira, no meu trabalho eu escrevo ofícios, tudo a
caneta, e naquele dia, porque minha mão suava muito graças à ansiedade, meus dedos
estavam todos borrados com tinta.

– Ótimo! Me ajude cá então! Olhe, tô com um problema aqui, vê? Meu texto não
anda. Vou ler e o senhor me diz – e respirou fundo pra ler – “Perto da linha do trem”.

– Continue – eu disse, como se tentasse parecer amável.

– Mas ai reside o problema, não dá! Olhe, você não entendeu. Esse texto é pra
quem eu amo, entende agora? Não dá pra ser assim! Quando se escreve é difícil porque
tudo tem de estar carregado de significado e a escolha de palavras deve ser precisa,
para revelar exatamente a imagem do nosso coração, como uma fotografia. Não, não.
Trem não! Trem não dá! Não porque ela é mineira e me chama assim, não é por isso. É que imagina o senhor se me comparam o nosso relacionamento com um trem? A não, meu senhor, me livre desse mal! Trem é grande, forte, aguenta bastante carga... Mas é fadado o coitado, fadado a sempre traçar o mesmo caminho. E então, se ela me pensa como algo que a sufoca? Não, eu a amo. Quero que vá livre e cresça e viva, não quero ser peso nenhum. Se eu uso o trem como o meio de transporte do texto é bem capaz que me achem estar tirando a liberdade dela... A eu sei, nem precisa dizer. Está querendo me dizer pra ir a pé então, não é?

Ai foi que eu vi que era realmente um escritor. Odeio isso em escritores. Eles vão até você com essa de corações puros enamorados, com essa de ser sensível e compreensivo. Você briga com um escritor e ele fita seus olhos com compaixão e te lembra porque ele te ama. Eles ficam com essa de “eu acredito em você” e “é porque eu confio em você” e “eu sei que você não faria por mal” e vão te levando a se entregar, igual às sereias dos contos. Pior ainda é essa mania de se achar versado. Escritor que é escritor sempre tem uma opinião difícil de contestar, sempre sabe o que falar, como e quando falar. Então olham pra você como se houvessem sido capazes de te levar para o mundo deles, onde conseguem ler seu coração, e dizem exatamente o que você esta pensando. É essa mania de se colocar no lugar dos outros para melhor entender, conhecer, o que for, que mais me irrita, porque eu sei que no fundo eles só o fazem para criar personagens. Mas o velho estava certo, e continuou.

– É que eu queria meio de transporte, sabe? Por pura poética. Se bem que, bom... Andando você tem a liberdade para ir a qualquer lugar, mas não completa porque só pode por terra. E eu acho triste, se me perguntar, já que você não pode levar muito com você. Quer dizer que não pode construir muita coisa. Eu bem sei que ela ia adorar que fosse a pé, pois é toda metida a simplista, mas eu quero construir junto com ela. Será que vai entender? Ah, essa vida de escritor é que é dura! A gente tem que ser é muito sensível pra isso, tem que saber ler as pessoas! Tenho é que dar um jeito de não deixar ela nem pensar que eu poderia usar o andar como meio de transporte, é isso. Não é por maldade, por repressão... É só pra ficar bonito no texto.

Outra coisa que eu não entendo em escritor é que eles parecem acreditar que não podem dizer de maneira clara o que pensam, sempre usam de vias subjetivas e metafóricas pra isso. Oras, façam-me um favor! Mas nesse ponto soou longe o apito do barco e eu me despedi às pressas.

O cruzeiro em questão já estava bastante atrasado, quase uma hora. Engraçado é que quando ela se atrasa assim por conta própria, e não porque o cruzeiro que ela pegou se atrasou, eu me faço de magoado e digo que também tenho minhas coisas para fazer, que não posso perder tempo esperando. Como se eu tivesse algo melhor para tomar meu tempo, até poder espera-la é um privilégio.

E ela não faz por mal, eu confio nela.

E barcos também, vale a pena esperar por eles ali no porto. Diferente de aeroportos, nos portos tem vida. É uma mistura de gente simples, trabalhadora de bom coração recolhendo o peixe, com gente rica cheia de lembranças de outros países, tudo com o abraço gostoso do cheiro e do ar do mar. E esse mar nos dá tanto!

E como é grande o mar, como há mar!

E os barcos vão por rotas livres no mar e levam todo tipo de carga, das maiores até as mais pequenas, de comida, roupa e outras necessidades primárias até luxos sem utilidade alguma. E quanta alegria! Dai você desembarca e esta livre para andar por terra como quiser, não importa se vai de taxi, ônibus, bicicleta: o ar e o cheiro do mar, aqueles mesmos que te abraçam, vão com você.

Até as viagens longas e demoradas são boas, você aproveita toda aquela imensidão indo com calma.

Mas onde eu estava mesmo? Ah! Ela chegou, e eu que sou muito ansioso já tinha tudo planejado: ia buscá-la com um sorriso e perguntar sobre a viagem, sem segurá-la muito forte nos abraços. Assim ela não ia perceber o quanto gosto dela e se assustar com isso. Acabou que eu estava tão ansioso que esqueci dessa ultima parte de me controlar.

Odeio isso. Dias de planejamento jogados fora, tudo por culpa daquele velho.





Obrigada, Gislaine Pereira, por não ter desistido.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Bloco E

Apaixonada por frequentar um cômodo, pedi a um amigo, exímio desenhista, que assistisse a uma aula de literatura e desenhasse meu professor. Passou-se a aula ao som de lápis correndo, de traços certeiros, belo e suave sombreamento. Ele fez um desenho preciso.
Aquele não era o meu professor, podia ser o do menino sentado ao meu lado mas meu não era! Faltava naquela folha algo e não era coisa pouca! Faltava algo pouco maior que uma imensidão.
Fui ingênua, confesso, quando, insistindo na aposta de erro certo, trouxe um artista renomado para reproduzir aquela infinidade. Pobre moço. Depois dele vieram outros, um erro após o outro, e eu me compadeci.
Pobre humanidade! Muito me apiedo. Não vêem como vejo. Nunca que vão ser capazes de sentir esse exato sentimento. Podem sentir parecidos, melhores ou piores, mas nunca o mesmo sentimento. Pobres de vocês que não enxergam no meu professor o mesmo que eu... só me pergunto como podem? Existe mesmo nesse mundo algo mais pra se olhar?

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

E direto da sala do DIRGRAD - Construção da Quadrilha de Drummond.

E então apoiou a cabeça na mão, sentada naquela sala vazia, e tratou de tentar acalmar o que não dava. Chegou ali como?
Sentada no escuro encarava o teto, mirava diretamente a lâmpada acessa. A luz não dava conta e tudo estava cheio de um vazio que ecoava nas paredes que agora nem tinta tinham. Era tijolo aquilo mesmo?
Era um tijolo laranja comum, como se podia ver claramente por trás da mascara de tinta que usava, sendo assim tinha um “quê” de humano. O tijolo laranja era assim como todos os outros feitos com ele e tinha seus seis buracos devidamente preenchidos com cimento, o que lhe tirava a sensação de vazio que tinha a menina.
A menina não tinha cimento. O cimento foi todo usado pra levantar o resto. O cimento gostava de tomar todo o espaço que cabia a ele, era meio possessivo. Na obra o chamavam de “ciumento”. A piada e o cimento foram feitos, e bem feitos, pelo servente de pedreiro que mexia a massa pra deixar tudo uniforme enquanto mexia com as meninas em seus trajes de ir pra escola.
As meninas em seus trajes escolares que riam do ciumento cimento não sabiam nada sobre a falta que o vazio provoca porque, não fisicamente, eram tão novas que nem tinham manchas no que chamavam de coração. Uma delas tinha mancha só naquilo que usava pra ir pra escola, aquilo que o servente de pedreiro (que mexia o cimento que completava o tijolo da sala da menina vazia) achava bonito. Pra mãe não brigar não tinha outro jeito.
O removedor de manchas comprado no mercado e escondido com tanta vergonha na mala não entendia a razão daquilo. Ele era de ótima qualidade e tinha certo orgulho de seu elevado valor financeiro. Achava que deveria era ser carregado em braços abertos pra todo mundo admirar sua beleza e eficiência. Particularmente, o removedor achava uma perda muito grande que ninguém mais aplaudisse sua coloração rosada.
Rosada era a cor da flor que morava na janela de uma sala que, pra flor, era linda e cheia de vida. A flor rosada ficava até corada quando dava uma boa olhada naquilo tudo. Existia lá uma parede tão firme e forte que sempre a protegia do vento e de outros perigos e o sol inundava o lugar e o deixava plenamente iluminado. Mas o mais bonito eram aqueles braços brancos que refletiam a luz e, as vezes, molhavam a flor. Aqueles braços que agora pareciam ter a força pra carregar o mundo mas na verdade só carregavam uma cabeça que a flor, muito feliz, viu ser rosada como a dela quando a menina levantou e caminhou em sua direção. Que momento de alegria experimentou a flor!Ia durar pra sempre até que caiu.
A flor morreu devido ao suicídio forçoso que cometeu ao ser jogada do 27° andar, junto com uma menina de rosto rosado que de tão vazia só deixava mostrar a marca vermelha gravada no rosto por ter ficado muito tempo com a cabeça apoiada nas mãos.
A sepultura da menina foi fechada por um servente de pedreiro conhecido da família que precisava de dinheiro e que lidava muito bem com isso de tijolos e cimento.
A flor secou na rua e ficaria lá pra sempre se não tivesse se prendido no solado do tênis de uma menina que usava um uniforme branquinho de tão limpo.