terça-feira, 10 de janeiro de 2012

E direto da sala do DIRGRAD - Construção da Quadrilha de Drummond.

E então apoiou a cabeça na mão, sentada naquela sala vazia, e tratou de tentar acalmar o que não dava. Chegou ali como?
Sentada no escuro encarava o teto, mirava diretamente a lâmpada acessa. A luz não dava conta e tudo estava cheio de um vazio que ecoava nas paredes que agora nem tinta tinham. Era tijolo aquilo mesmo?
Era um tijolo laranja comum, como se podia ver claramente por trás da mascara de tinta que usava, sendo assim tinha um “quê” de humano. O tijolo laranja era assim como todos os outros feitos com ele e tinha seus seis buracos devidamente preenchidos com cimento, o que lhe tirava a sensação de vazio que tinha a menina.
A menina não tinha cimento. O cimento foi todo usado pra levantar o resto. O cimento gostava de tomar todo o espaço que cabia a ele, era meio possessivo. Na obra o chamavam de “ciumento”. A piada e o cimento foram feitos, e bem feitos, pelo servente de pedreiro que mexia a massa pra deixar tudo uniforme enquanto mexia com as meninas em seus trajes de ir pra escola.
As meninas em seus trajes escolares que riam do ciumento cimento não sabiam nada sobre a falta que o vazio provoca porque, não fisicamente, eram tão novas que nem tinham manchas no que chamavam de coração. Uma delas tinha mancha só naquilo que usava pra ir pra escola, aquilo que o servente de pedreiro (que mexia o cimento que completava o tijolo da sala da menina vazia) achava bonito. Pra mãe não brigar não tinha outro jeito.
O removedor de manchas comprado no mercado e escondido com tanta vergonha na mala não entendia a razão daquilo. Ele era de ótima qualidade e tinha certo orgulho de seu elevado valor financeiro. Achava que deveria era ser carregado em braços abertos pra todo mundo admirar sua beleza e eficiência. Particularmente, o removedor achava uma perda muito grande que ninguém mais aplaudisse sua coloração rosada.
Rosada era a cor da flor que morava na janela de uma sala que, pra flor, era linda e cheia de vida. A flor rosada ficava até corada quando dava uma boa olhada naquilo tudo. Existia lá uma parede tão firme e forte que sempre a protegia do vento e de outros perigos e o sol inundava o lugar e o deixava plenamente iluminado. Mas o mais bonito eram aqueles braços brancos que refletiam a luz e, as vezes, molhavam a flor. Aqueles braços que agora pareciam ter a força pra carregar o mundo mas na verdade só carregavam uma cabeça que a flor, muito feliz, viu ser rosada como a dela quando a menina levantou e caminhou em sua direção. Que momento de alegria experimentou a flor!Ia durar pra sempre até que caiu.
A flor morreu devido ao suicídio forçoso que cometeu ao ser jogada do 27° andar, junto com uma menina de rosto rosado que de tão vazia só deixava mostrar a marca vermelha gravada no rosto por ter ficado muito tempo com a cabeça apoiada nas mãos.
A sepultura da menina foi fechada por um servente de pedreiro conhecido da família que precisava de dinheiro e que lidava muito bem com isso de tijolos e cimento.
A flor secou na rua e ficaria lá pra sempre se não tivesse se prendido no solado do tênis de uma menina que usava um uniforme branquinho de tão limpo.

7 comentários:

Carlos Pegurski disse...

Fantástico, Thamara!

Anônimo disse...

GEEEZ!!
Eu senti muito a sua falta aqui no blog, sabia?
Tanto que eu que nunca comentei resolvi que deveria comentar! Quem sabe assim você se empolga e aparece mais vezes, né não?

O que você fez ai foi perigoso, mocinha!!
Trata-se de um texto GENIAL! A ideia dele é ótima! Mas não vou te iludir, é um texto pra poucos.
A maioria vai olhar pra esse texto e vai achar que são muitos parágrafos desconexos, quando na real eles não tinham como estar mais conectados!
Essa sacada de que tudo na vida está ligado é algo de forma grandiosa, no entanto você foi lá e mostrou tudo isso assim de maneira tão simples!!
Parabéns, a história prende e surpreende. Bons leitores farão bom proveito.
É um texto que se lê pela primeira vez e ao ler pela segunda, conhecendo o desfecho, descobre-se um texto totalmente novo.
Que orgulho! Acho que você cresceu!

Me chame de anônimo novo-velho

Anônimo disse...

Eu achei muito bacana o modo com que você dá vida para os objetos =) Parabéns.

Ass.: F.

Anônimo disse...

Todos na praia, é isso minha leva de anões?

Esse seu texto ficou ótimo!

Ouvi boatos de que tem uma versão dele em papel, verdade isso?
quer vender?

Manifesto disse...

Não gosto do anonimato. Poderiamos ter mais piratas por aqui? Não sei se está aceitando sugestões.

Gostei muito da frase "A flor morreu devido ao suicídio forçoso que cometeu ao ser jogada do 27° andar", mas como ela foi jogada se foi um suicídio?

Manifesto disse...

Já li tudo, agora estou satisfeito de piratas.

Anônimo disse...

Esse texto é o meu preferido! A forma como você escreve é incrível e ainda acho que deverias fazer um favor para a humanidade e publicar um livro.
Anônimo aqui!